21.2.19

Corda bamba

São estas 
as lantejoulas que interessam
o verniz descarnado
no aparato,
inconsequente e escondido,
de um vapor indelével 
em aspiração a ser ar saudável.

Faço do escárnio jogo privado
em ensaios mais ou menos pueris
só para provar que não movo as pálpebras
e nem nos sonhos insondáveis
ambiciono ser torcionário de ninguém.
Prefiro-me
estouvado sem loucura ostensiva
capitão de navios sem mar
trovador sem causa aparente
ministro-sem-pasta
(ou melhor: ter pasta sem ser ministro)
escansão das emoções desejadas
em imersão profunda 
sobre o fundo mais fundo de mim mesmo.

Se me dizem
que a maldade é inata
o estado estrutural da humanidade
o recomeço das artes transgredidas
o insalubre convite à desonra,
tendo a concordar;
não sem antes objetar
(sem ser confissão da atividade)
que não seremos eremitas da congregação
nem através dela somos autorizados
à impiedade fria, cruel 
– o que não significa
que não predomine o nosso antónimo.

Prefiro 
contemplar as lantejoulas privadas
as que se escondem na nostalgia do olhar
enquanto vejo desfilar
lá fora
os arquitetos de obra estilhaçada
os polícias dos costumes
os obnóxios torturadores de leis aceitáveis
extravios de uma linhagem exaurida.

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