8.2.19

Moldura

Calculo de cor
a altura da tua pele
o cais em que vejo as cores
num destino sem mapa
se não a bússola em minhas mãos. 
O estremecimento não cora
à espera das armas iguais,
enquanto tribunos no mais elevado altar
somos penhores das joias singulares
no pleito onde entregamos os corpos
em mares agitados num frémito sem horizonte
e as bocas que se cruzam
no suor intemporal. 
Corremos os apeadeiros
em incalculáveis paisagens ditadas pelo olhar.
A submissão da voz
desembaraça o silêncio que fala mais alto
e os sonhos já não são sonhos
porque os traduzimos em cada dia nosso. 
Cresce uma espada sem dor
manual impecável sob a lareira meã
cresce
pelo que de ti há de tanta água em minha boca
no mapa que tateio
o corpo que quero, 
ávido de o querer:
não serão vãos os predicados;
a bem, percorrendo os teus centímetros
a cartografia que aprendo de cada vez
mesmo sabendo-a de cor.
Juntamos a noite ao peito faminto
e se as bocas não se perdem
continuamos feitores da empreitada
uma coreografia em papeis suaves
uma paleta das cores que inventamos
uma marca registada
singular.
Do amanhã
sabemos ser nosso caudal
a bissetriz onde se fundem os corpos nossos
um amanhã que se faz hoje a cada minuto.
Cuidamos do incenso
que se insinua nas veias:
não o deixamos decair
pois somos os curadores das fogueiras válidas
em prosa elegantemente deitada
nas folhas arrancadas ao céu da boca.
Pétalas frondosas emergem dos poros
enquanto dançamos a dança verossímil
compondo as pautas ufanas 
no amparo das velas dispostas
os corpos transidos
a certa altura, 
exangues,
no imodesto verso que te dou
à troca do tanto que me completas.
Se um deus houvesse
tenho a certeza que daria a aprovação
ao império impróprio 
que juntamos com as mãos feitas 
no sangue vínico. 
Os sonhos já não são sonhos
porque os traduzimos em cada dia nosso.
No amanhã que se faz hoje 
a cada minuto.

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