7.8.17

#278

A lua esconde-se
na cortina do eclipse
cansada de ser refém 
da multidão de olhos inquisitoriais. 

6.8.17

#277

Estiolam as espadas
vetustas em sua orfandade
no proveito do peito armado. 

5.8.17

Rosa-embrião

Desde a penumbra sem tempo
uma rosa abotoada
grita
surdamente grita
à espera do devir. 
Haverá chave desarvorada
algures ocultada
talvez sepultada no jardim húmido
o segredo que a rosa embrião espera. 
O punhal desafiado
ensanguenta a árvore secular;
folgou a rosa-embrião,
não foi testemunha da carnificina:
haveria de desistir do parto
e preferia ser nado-morto. 
Pelo andar das coisas
e em mantendo-se a teimosia da rosa
que quer ser rosa de nome inteiro
sem saber que fado a espera:
ciclo emprestado às leis da natureza,
em paciente medrar
até ao desprendimento de suas pétalas
decadentes enfim,
ou um algoz colhendo-a prematuramente
mercê das vaidades humanas
que a querem
para frívolo enfeite?

4.8.17

Underdog

Diatribes em desconto
vadiagem em ponto de rebuçado
carteirista amador
eunuco da vontade
primoroso bastardo das colheradas de mofo
em vidraças opacas
deitando os olhos por fora das pálpebras
vomitando alarvidades de sua lavra
incansável apedeuta
esfarrapado mental
destilando a andrajosa diálise do corpo
em contrafeitas reviravoltas
sempre acabadas no lugar de partida.

Reabilitação atempada,
porém,
consagrada pelos estudiosos das igualdades:
metida em ebulição
a desvergonha dos favores e suas pagas
mais um aneurisma
trocando as voltas aos circuitos elétricos
e ei-lo
respeitável senador
ouvido aqui e ali
sabedor de podas todas
(“tudólogo”, como soe dizer)
promitente feitor das verbenas boas
e do crédito que destrava a prosperidade
magnata dos magnatas
mesmo amesendando com os cotovelos
em despreparo.

Belas são as nótulas do compêndio:
que a ninguém seja vedada oportunidade.

#276

Un jeu d'enjeux
mentir aux mensonges 
au bout de la féroce solitude. 

#275

É como desfolhar um malmequer:
binárias alternativas
embaraçam os pesares e seus opostos. 

3.8.17

Palavras-aquário

Palavras
às braçadas
na absoluta recusa do silêncio
estocada certeira
no húmus da solidão. 

Autênticas ou distraídas
sorumbáticas,
talvez,
às vezes alinhadas com o pesar dominante,
vezes outras insubmissas,
sempre frontais
cruas
mas palavras mastros
muralhas do sono justiçado
palavras nuas
com a cor do mar
transparência lídima,
mas palavras. 

Cimento duradouro
tirando as teimas aos fungos timoratos
que cobrem as vidraças com baça cortina
no desencontro do relógio com o tempo. 
O emudecer do rosto
um punhal ilegítimo
que locupleta os serenos desenhos
por onde se deita
o corpo cansado
o corpo
à espera de triunfal desembaraço. 

Nadando num mar de palavras,
tantas
que da fartura não há de sobrar
sobressalto na escolha. 

#274

As plebes amotinadas
na combustão da revolta
a dois passos da miragem.

2.8.17

#273

Fossem chão essas lágrimas
e o mar por sombra
seria o peito descarnado. 

Explosões no céu

Dessa pistola extraviada
balas sem corso
o trono extasiado do céu sem cor
constelações despidas no jardim centrípeto
e as páginas do livro cuspidas à capa.
Sem os medos desapalavrados
nem as demenciais gargalhadas
no ergástulo do mar encapelado
fantasmas denunciados perdem a face
e bolbos encarcerados esperam à porta.
Caminham em movimentos paralelos
loucura e solidão
num archote de preces estouvadas
ardendo nas paredes aluadas
sem os dedos por testemunha
sem infrequentes vulcões por estamento.
Perdem-se os tabuleiros gastos
na imensidão do futuro
e as estrofes desprendem-se da lua baça
em vinhos pedigree
em ruas tingidas pelo sortilégio anónimo.
Em vez de loucura
propõem
a mansidão dos tempos vagarosos
a desleitura das palavras vizinhas
comboios em arrefecida marcha
gente sem rosto
a pele imaculadamente imune ao suor
bíblias e obras semelhantes.
Desagrilhoo os chamamentos assim enquistados:
não quero tibiezas
não admito dissolução da alma repentina
não torno possível
as viagens dentro do mesmo lugar
e as arcadas solícitas que terminam em penhor.
Levantam-se os mastros irrefreáveis
contra a subordinação malsã
temerosos pederastas que se vendem ao desbarato
as páginas e páginas escritas no nada
num nada sem remorso
num nada sem incómodo,
o nada inacabado.
Pois levamos o mar inteiro
abraçado às mãos suadas,
tentaculares
e devemos a nós mesmos
a furiosa sede de tudo querer
sem sabermos dos limites
pois é dos deslimites que somos tutores.
Amanhã pode nem haver
amanhã;
e depois?
as palavras sem vento
as palavras vertidas no ouro mais alto
são-nos creditadas
em ondas imarcescíveis
no estrépito dos campos em silêncio
de onde trazemos flores maduras
a medula da glória embebida na ossatura.
Na noite sem fundo
emprestamos o sono ao fojo de um lobo
e somos como ele
lobo irredentista
apóstolo das franquias por onde se compõe
a gente que adora ser gente.

1.8.17

Autopoiese

Fotografia
para que o tempo não fuja
ou então
pergunta às sombras sucessivas
pelos contornos do rosto.
Faz lembrar
a escuta à voz própria
e ela parece corpo estranho
engastado nos ouvidos.
Passamos a maior parte do tempo
escondidos do rosto
da voz
e
– quem sabe? –  
na contrafação da identidade.

#272

Os números nadam 
na estatutária tirania da exatidão. 
Dos números, nada. 

31.7.17

Máquina de gelados

A engomar as esquinas dos dedos
não vá aparecer um abutre
e as estrelas fiquem sem avença.
Tirava à sorte
as ruas nunca desandadas
e os padres que ia ouvir:
no fim da função
soube sobrarem todos os da confraria,
sua serventia desestimada
– em vésperas de arcar
com o labéu de herege.
Num poço da morte extravagante
(ainda mais extravagante)
afiado do avesso
o artista às arrecuas
desafiado a entrar pelo buraco da agulha
e a sair de fininho.
O general andrajoso
ciente das guerras perdidas
melodramaticamente pedinchando sinecura
aos deputados ilustres,
estes em fingimento absoluto
fazendo de conta não saberem
a identidade do general.
No lado esquerdo do teatro
uma sindicalista andrógina ressonou
com o mesmo estrondear
da voz com que assustava o patronato;
os atores
em sentida fraternidade,
meteram intermitência na função
e aplaudiram
(de punho erguido),
agradecendo 
a criatividade do contributo sindical.
O grasnar do pato denotava aflição:
um homem aleatório sondou o lugar
e descobriu o pato enredado
na propaganda eleitoral
(que tombara
por efeito de uma higiénica tempestade).
A viúva
apareceu vestida de bailarina espanhola
e os metodistas da moral
assarapantados
vomitaram sentida
(mas covardemente silenciosa)
indignação.

Por sobre os palcos todos
gelado em catadupas
para notório arrefecimento
dos vetustos lacraus.

#271

Desacerta as horas
no improvável fuso 
do meridiano esquecido. 

30.7.17

#270

O escafandro refém das profundezas
protesta uma luz bruxuleante. 
Na varanda trespassa a dúvida
se a imersão não é o arquétipo sonhado. 

Doca seca

Na doca seca
sede porfiada
na sede escolhida.
Destronando o olhar emaciado
na demanda da água vivaz,
as mãos mergulham na terra seca
na secante bissetriz do instinto capaz
na sua própria legiferação existencial.
Oxalá tragam água
os dedos enegrecidos,
empastelados.
A doca seca
leva demora excedente.

29.7.17

#269

Sunset flower
on the hectic floor
through the hoary flour.

Argamassa

O basalto não sabe
dos nós do cordão enfiado
no pé das dunas
nem do vento lacustre.
Há uma lanterna por acender,
esperando pelo outono,
de raiz sabendo da clara alvorada
sem recusar os abertos braços
à ternura fundacional.
Ao contrário do que parece
o basalto não respira.

28.7.17

Bosta restante

Vosselência
abespinha-se,
rasga o peito
(se preciso for)
tinge de vermelho a parte branca dos olhos
berra para se fazer ouvido na Nova Zelândia
é tomado por violentos abalos telúricos;
ai se lhe pisam calos doridos
pois há uma dama valiosa para defender:
dirá,
a dignidade
(caso lhe aprouver saber a medida respetiva)
que não pode ficar no pasto do silêncio
ao serem desferidos atentados
contra sua douta gnosiologia.
Vosselência
terá afeções de visão
de tanto se agigantar
ao espelho onde se contempla
(ou se congemina – ainda não se discerniu)
na astuta facúndia com que discorre
na promulgação da erudição com que terça armas
como se precisasse
de estender o falo em cima do estirador
só para o mostrar mais viril
do que os falos concorrenciais.
Vosselência
terá ido às catacumbas medievais
e delas não terá tido o proveito de retornar
– direito que lhe assiste,
que fique bem entendido.
Vosselência,
prosélito de si mesmo
engenhoso no registo canhestro
acossado por catilinárias insinuadas
general andrajoso
dúctil na bravura cavernícola,
não passa das medidas da mediocridade.
Pois vosselência
é penhor de argumentos beócios
perseguições
ao jeito dos perseguidores que vitupera
sanha estulta,
enfim
de vosselência
irrompe a urticária própria dos escatológicos
pois da pena de vosselência
excreta nauseabundo hálito
a mera bosta
que nem para restante
(ou fossa)
serventia oferece.

#268

Tanta tinta vertida
e as palavras armadura
arrancadas ao murmúrio
dos lábios.

27.7.17

Ponte reatada

A ponte partida em dois
o barco temeroso não se aventura
os marinheiros na embocadura do rio
perguntam ao silêncio
que desastre combaliu a ponte.

Duas são as margens
sem ponte como união.
Sobra gente descuidada
nas duas margens,
incrédula
mascarando o desespero
olhando, lívida,
os escombros ladeira abaixo
os vestígios de pedra despojados no rio
na água contudo sossegada.

Um ancião avivou reminiscências:
quando faltavam oito décadas para hoje
e ele medrava,
ainda infante,
a hostilidade soerguia-se entre as duas margens
à míngua de ponte.
Recordou
o ancião com os olhos marejados
que a ponte foi a melhor oferenda dos deuses
e que homenagens foram à mercê do feito.

A noite caía
e a penumbra levou consigo
a devastação da ponte ruída.

Ninguém dormiu na noite depois:
não queriam pesadelos de arengas
nem revisitação dos casos bélicos;
assim como assim
eram gente com pátria comum
gente com parentela do outro lado
da margem.

No despontar da manhã
misturada com uma neblina teimosa
a ponte confirmava-se
destruída.

Os vizinhos não quiseram
dar a mão à resignação:
de uma assentada,
na diligência fervilhante
de quem recusava a contingência
ou a derrota diante do sobressalto,
arregaçaram as mangas.
Contra o conselho dos engenheiros
prometeram
em jura solene
que a ponte seria reunida
num lustro de semanas.

#267

Parto
interiormente
e fujo do circo
e dos seus palhaços.

26.7.17

Beijo

O beijo
vulcão que incensa poros arrefecidos
rio que verte o sangue fervente
leito aquecido no desarranjo dos lençóis
aprumo dos amantes
o beijo prova de vida
o beijo-fogo
o beijo-sentinela
cais arrebatado que levita os sentidos
de onde os corpos sopesam sua alquimia,
pedaço de lábios despojado de cortinas
paciência no dorso da chuva fria
espada destravada
carne fundida
sonhos trazidos ao chão quente
o beijo-terramoto
o beijo-voragem
beijo só
começo e final
ou apenas começo
o beijo-estrada
frontispício que se oferece janela
constelação de flores pousadas sobre o rosto
esquecimento do resto,
esquecimento do tempo todo
ou o tempo tomado pela vertigem do beijo,
lábios carnudos deitando-se intensamente
sobre uns outros ávidos deles,
trono açambarcado de um reino dual
beijo-quartel
delírio sem conto de fadas
intenso tesouro com cidade a condizer
desejo desejado
o beijo
epítome do desejo
síntese de tudo o que tremeluz
beijo-centelha
beijo-mantimento
beijo.

#266

Ao desejo em ebulição
não se afivelem as mordaças:
nunca são tardias
as convulsões do corpo.

25.7.17

#265

Esse almirante
dos estornos insidiosos
em que seu engasgo se consumia,
trazia-o sob trela
(minha consolação).

Celebração

Aberta uma garrafa
cumpra-se o axioma
sem irreverência aos cânones:
bebemos
como bebemos com fúria
a ossatura da vida
e ela passa-nos suave
no adoçado chão que pisamos.

Não são as voltas travadas que contam.
Não queremos sal em vez de brisa
nem deixamos as pedras assertivas
tomarem lugar num trono
pois esse é o trono que chamámos às mãos
o trono desenfreado
de onde congeminamos as artes que importam
raiz de um património
onde somos um abraço imorredoiro
onde somos
a irrefreável força
junta na imoderada casa nossa testemunha.

Aberta a garrafa
bebemos até ao fim.
E sabemos
que a garrafa esgotada
é o meridiano das outras garrafas
à espera de serem nossa coutada.

24.7.17

#264

Uma estrela sem firmamento
o vento contumaz
uma centelha
no esbanjamento da claridade.

Diz-me um nome

Era um vulto
uma sombra deformada
o esquálido lençol caindo
sobre o vulto.

Tirava as medidas ao sol
enquanto ensaiava as demandas.
Pudesse ao menos o medo
ser o rigor baço
do silêncio;
quem sabia
se as réplicas em devolução
seriam medonhas
um apocalipse sem freio
uma maré viva, violenta
um mergulho inútil sobre o decorrido
viúvas ideias tateando cegas na escuridão.

Não reprimi mais
a demanda esperada à boca de cena
antes que apodrecesse na violada integridade:
pergunta pelo meu nome,
pergunta pelo meu nome,
antes que seja tarde.

Olhei
no contorno do meu ser.
Podia ser que houvesse alguém
a tomar entre mãos
a compungida demanda.
Um viajante por acaso
um nómada cavalgando a poeira
um prodigioso marçano
escapando entre as gotas da chuva
o arco-íris, diz-se, penhor da felícia
o jogo amparado pelos ascetas mudos
um coiote desinteressado, mas faminto
uma sereia fora do lugar
artistas à míngua de influência
devolutos lugares prometendo gente
a gente inteira possuída pelos seus nomes.

Não estava ninguém.

Era um vulto
e um espelho,
um espelho peça sozinha na paisagem:
e o vulto
o retrato da pessoa permanecida diante
do espelho.

23.7.17

#263

Margens sem estorvo,
de tantas pontes
serviçais.

Máquina do tempo

Brincávamos nas fronteiras da loucura:
não havia tempo capaz
de esfriar a ousadia.
Nos rostos arqueados
lavados nas águas cansadas
havia um desmentido do enunciado.
Tirávamos à sorte
as cartas madraças
apostando a ferocidade
contra a imaculada macieza
dos temperos que compunham as almas.
Não eram ilusões
os ossos emudecidos no viés do nevoeiro
nem os rapazes frenéticos
confirmavam o imorredoiro que julgávamos
possível.
A máquina do tempo
era a derradeira arma de arremesso
contra os impudores ocultados;
a maneira
de vergar o impossível
num braço-de-ferro pueril.
Uma filigrana tão frágil.